• Falar sobre Ansiedade Infantil e  Racismo

Quando falamos de infância, é comum pensarmos em leveza, brincadeiras e liberdade. Mas, infelizmente, para muitas crianças negras, essa fase da vida já é atravessada por experiências de dor, exclusão e medo — sentimentos que, muitas vezes, são invisibilizados pelos adultos. O racismo, mesmo quando não é explícito, infiltra-se no cotidiano de forma sutil, deixando marcas profundas no emocional e no desenvolvimento dessas crianças. É aí que entra a importância do letramento racial.

O letramento racial não é apenas ensinar sobre racismo. É educar para que crianças, famílias e escolas reconheçam as estruturas que o sustentam, nomeiem o que sentem e aprendam a reagir de maneira crítica e acolhedora. É criar espaços de escuta e validação da dor racial — algo que pode, e deve, começar desde a infância.

Atuando na área da saúde, especialmente com crianças, percebo cada vez mais como o racismo afeta diretamente o bem-estar emocional dos pequenos. Crianças negras que apresentam sintomas como ansiedade, retraimento, dificuldade para dormir ou para se expressar muitas vezes não estão apenas passando por uma “fase”, mas sim respondendo a um ambiente que lhes nega o direito de serem simplesmente crianças.

Quantas vezes uma criança negra já ouviu que seu cabelo é “ruim”? Quantas vezes se sentiu “fora do padrão” ao se olhar no espelho? Quantas vezes foi preterida em um grupo de brincadeiras ou tratada com desconfiança dentro da escola? São experiências que acumulam tensão, insegurança e medo — sintomas claros de uma ansiedade infantil racializada.

Falar sobre isso com as crianças é um ato de cuidado. Não precisamos esperar que elas sofram para iniciar a conversa. O letramento racial deve estar presente em casa, na escola, nas músicas, nos livros, nas terapias, nas brincadeiras. Isso não é “colocar peso” nas crianças, como muitos dizem. Pelo contrário: é oferecer ferramentas para que possam se proteger, se reconhecer e se orgulhar de quem são.

Quando uma criança negra aprende que sua cor é bonita, que seu cabelo é forte como suas raízes, que seus ancestrais foram reis, rainhas, guerreiros e inventores, ela cresce mais segura, mais firme, mais inteira. Quando aprende a identificar o racismo, entende que o problema não está nela. Isso é saúde mental. Isso é prevenção.

Como profissional da saúde e mulher negra, vejo o letramento racial como uma urgência e uma responsabilidade coletiva. Não é tarefa apenas das famílias negras, mas de toda a sociedade. Falar sobre racismo com crianças não destrói a inocência — fortalece a consciência.

Precisamos cuidar do emocional das nossas crianças com o mesmo zelo com que cuidamos de sua alimentação ou de sua vacinação. Porque uma infância protegida do silêncio sobre o racismo é uma infância mais livre. E toda criança merece crescer com autoestima, com voz e com coragem para ocupar o mundo sendo quem é.